Grandes empresas, pequenas ideias

Desde que o Que Tal Isso? foi criado (numa mesa de bar, por sinal), fomos fortalecendo um certo espírito questionador, e nos convencendo de que querer fazer além do óbvio não só é possível, mas está longe de ser absurdo, como muitas pessoas e empresas fazem parecer.
Não se engane, ainda que no manual de valores da maioria das empresas esteja escrito em letras bonitas ESPÍRITO INOVADOR, ou PENSAMENTO CRIATIVO, isso se mostra um grande BLABLABLA na vida real.
Esse abandono da vontade ...
de fazer diferente tem várias causas, todas graves, ainda que contornáveis.
O primeiro motivo está na origem das empresas. De maneira geral, uma companhia é criada para resolver um ou mais problemas do mercado e lucrar com isso, e costuma nascer como um grupo de pequeno porte.
Nessa fase, quando a empresa é composta por poucas pessoas, é comum que todos consigam analisar a organização como um todo, encontrando pontos de melhoria na estrutura. Porém, quando a empresa cresce, essa visão holística é deixada de lado. As pessoas passam a olhar apenas para a sua sub-área (muitas vezes tomando as outras como rivais), ou, como é mais comum, olhando apenas para o próprio umbigo.
Se no começo da empresa o funcionário pensa no que é melhor para o grupo, na multinacional ele acha que é cada um por si, e muitas vezes deixa de tomar algumas atitudes por não ser vantajosa para a sua própria área, ou seu cargo.
Aí surgem as desculpinhas, como a famosa “em time que está ganhando não se mexe“. Que besteira! Como se um presente positivo fosse suficiente para garantir um futuro de sucesso. Em time que está ganhando se mexe SIM, pra garantir que o adversário não vai empatar o jogo.
Existe também a síndrome de grandeza, aquele sentimento de valorização de um fato, simplesmente porque ele é um fato. Quantas vezes você já viu alguém dizendo que determinado ponto não poderia ser alterado, porque sempre foi feito daquela maneira? Ou que, se alguma mudança fosse feita, seria como abandonar o que tornou a empresa o que ela é hoje? Nada é tão grande que não possa ser mexido, tão importante que não possa ser destacado, tão bom que não possa ser melhorado.
Aí chegamos em um obstáculo mais profundo: o medo de apostar. Sim, porque qualquer mudança, inovação, ou melhoria é sempre uma aposta. Ou melhor, um investimento, já que a aposta está 100% fora de nossas mãos, mas em um investimento você pode se esforçar para escolher melhor.
É comum que a empresa de grande porte acredite que tem muito a perder, e por isso evitem o risco. Como se a Coca-Cola pudesse destruir, com apenas uma mudança, toda a força que tem como marca. E na verdade é justamente o contrário.
As grandes empresas deveriam ter ainda mais facilidade para inovar, já que podem investir parte dos recursos em um caminho errado com menos prejuízos. Afinal, o que machuca mais, uma farpa de madeira na sua mão, ou na pata de um elefante?
Sem abandonar todos estes vícios, fica difícil sair da vala comum, e propor soluções inovadoras ao mercado, que poderiam dar ainda mais destaque (e dinheiro) à empresa. Daí a fórmula comum, de organizações que crescem à partir de um produto diferente, e nunca mais apresentam nada de novo.
Sim, é possível fazer diferente, seja “incomodando” as pessoas com uma postura de revolucionário corporativo, ou inovando no terreno que lhe pertence. Pode não ser o caminho ideal, mas quem sabe é um bom primeiro passo para evitar essa letargia criativa.
Mas talvez isso seja natural. Assim como nós nascemos, crescemos e morremos, talvez as empresas estejam fadadas a nascerem, crescerem e serem ultrapassadas pelo concorrente, que um dia terá o mesmo destino…
Se você acredita nisso, boa sorte. Eu vou continuar por aqui, levantando a bandeira de que é possível fazer diferente, fazer melhor.
Grandes empresas, pequenas ideias publicado originalmente na CASA DO GALO - O animal da publicidade.
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