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Updated 3 months, 3 weeks ago

Source:
http://www.amalgama.blog.br/

por Alfredo Cesar * – Não há nada mais cansativo do que a defesa da literatura por parte de seus tantos amantes. Considerada desde os tempos medievais como inútil e combatida como supérflua, a literatura necessita se justificar constantemente. Talvez por vivermos acuados nesse mundo que nos demanda tanta praticidade, nós, os estudiosos da literatura, acabamos nos ressentindo e começamos a exagerar a respeito das excelsas funções da literatura. Não raro, resvalamos numa espécie de nefelibata idealismo ...
, e esquecemos que, ao fazer isso, tornamos a literatura ainda mais enleada de mistificações.
Eis o caso do recente artigo do escritor peruano Mário Vargas-Llosa, “Em defesa do romance”, publicado na revista piauí. Vargas-Llosa faz mais uma de tantas defesas “humanistas” do gênero. Sem o romance, segundo o escritor, não nos diferenciaríamos tanto assim dos animais. Através da leitura de obras de ficção, aprenderíamos a viver uma vida melhor. Mas já no começo do artigo percebemos que por trás do “humanismo” do autor, esconde-se – de forma nada discreta – um profundo elitismo. Vargas-Llosa afirma:
Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão.
A defesa do romance começa a se transformar na defesa do estilo de vida de uma casta social – os que lêem Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire –, e menosprezo a todos os “semi-idiotizados” que não conhecem tais autores. Aliás, esse desdém em relação à cultura de massa vindo de um “defensor” do romance não deixa de ser irônico, pois as acusações sofridas pelo romance no início no século XVII eram muito semelhantes àquelas hoje desferidas por Vargas-Llosa contra a cultura de massa. Perto dos gêneros tradicionais como a épica, a tragédia, a comédia, o novo gênero parecia não ter foco, misturando o sublime com o grotesco, e ao narrar eventos corriqueiros de pessoas banais do tempo presente, o romance mostrava-se despojado de qualquer nobreza. “Defensores” de poemas épicos e tragédias poderiam dizer que os leitores dos clássicos amariam melhor que os arrivistas amantes do romance. Como comparar Beatriz de Dante, excelsa e angelical, com a Dulcinéia de Quixote?
Os tempos passaram, as dinâmicas culturais mudaram e hoje vemos Vargas-Llosa defendendo o romance como farol das grandes questões da humanidade e desprezando a banalidade da cultura de massas, estabelecendo assim uma falsa polaridade, pois bem sabemos o quanto o romance contemporâneo dialoga com a cultura de massas, que está longe de ser um ente homogêneo. No mais, convivo com acadêmicos há bons anos, leitores de romances e poemas, e não vejo em suas paixões, amores e obsessões nenhuma diferença qualitativa em relação a qualquer outra pessoa que não tem a felicidade de ler frequentemente obras de literatura. Aliás, o romance não nasce e se desenvolve exatamente para mapear o amor e a vida de pessoas ordinárias, como Emma Bovary de Flaubert e Miss Dalloway, personagem de Virgina Woolf?
Depois de separar um tanto arrogantemente a humanidade entre aqueles que, como ele, amam mais solidamente – porque são leitores de Baudelaire e Garcilaso – dos que não amam com tanta qualidade, como os consumidores da cultura de massa, Vargas-Llosa enxerga o romance como gênero capaz de nos ensinar sobre a tolerância diante das diferenças étnicas e culturais! O romance faz dos leitores pessoas tolerantes com aqueles diferentes deles mesmos, certamente tanto quanto como o próprio Vargas-Llosa! Diz o escritor peruano:
Nada, mais que bons romances, ensina a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do patrimônio humano, e a valorizá-las como uma manifestação de sua múltipla criatividade.
Eis uma tese bonita, mas absolutamente carente de fundamentação. As elites coloniais britânicas e francesas certamente liam Shakespeare e Montaigne, o que não as impedia de tratar os colonizados como seres essencialmente desiguais a elas próprias. Isso para nem sequer mencionar o caso nazista, já que a elite do III Reich, a começar pelo próprio Hitler, tinha uma certa educação estética. Como esses leitores cultivados não perceberam a grande lição humanista do romance?
Creio que aqui chegamos ao nó de minha discordância com o a visão do romance exposta por Vargas-Llosa em seu artigo. A meu ver, Vargas-Llosa fetichiza a literatura. Fetichismo é atribuir poderes e qualidades a um objeto que de fato não os possui. O grande problema na argumentação de Vargas-Llosa é que o escritor peruano parece querer derivar uma ética a partir da forma romanesca. Como se da leitura de romances nós passássemos a amar com mais qualidade, a tolerar as pessoas diferentes de nós e assim por diante. Vargas-Llosa está preocupado o tempo todo com o que a literatura pode fazer de nós, quando o crítico materialista sabe que esse é apenas um dado do movimento dialético. Tão importante quanto saber o que a literatura pode fazer de seus leitores, é entender o que nós fazemos da literatura. É preciso colocar o modelo de Vargas-Llosa de cabeça pra baixo: Não é a literatura que cria um modo de agir no mundo. São os nossos posicionamentos éticos que potencializam a literatura, e a impedem de tornar-se letra morta, fixa em seus valores originários, sejam eles quais forem, para continuar dialogando com nossas angústias e problemas.
Ora, por que a literatura tão humanista e liberal não ensinou os valores de tolerância para as elites coloniais britânicas e francesas? Porque estas não eram as perguntas que tais leitores estavam fazendo aos romances que liam. Porque esses não eram os problemas que consideravam os mais importantes. Esses valores fazem sentido num mundo calejado pelas guerras mundiais, pelos fundamentalismos religiosos e pelos regimes totalitários e autoritários que assolaram nosso planeta numa escala inédita no século 20. E apoiados nessa visão de mundo, esculpida pelo processo histórico, revisitamos nossos clássicos, fazendo-lhes novas perguntas. Mas não são perguntas a um oráculo, que nos ensinará um modo de agir no mundo.
Obras literárias podem nos dar novo vocabulário para nomear experiências que antes intuíamos mas não conseguíamos definir; podem nos oferecer insights sobre determinados processos sociais ou psíquicos; mas dificilmente – apenas por elas mesmas – nos ensinarão a tratar o nosso próximo de forma melhor e com mais dignidade. Pois como todo conhecimento, a literatura também pode ser instrumentalizada para os mais diversos fins, e defesa dos mais estranhos valores. Sempre lembro de amigos espanhóis e italianos que detestavam Don Quijote e A Divina Comédia, pois esses livros eram ensinados obrigatoriamente na escola, em seus respectivos países, de uma maneira oficial, laudatória, repleta de decorebas, auto-referente, guiada pelas perguntas mais tediosas e aborrecidas. Como se vê, os seres humanos são capazes de transformar um livro como Don Quijote num romance “chapa-branca”, ao mesmo tempo que transformá-lo numa ficção representativa de muitos de nossos dilemas, anos após anos, pelas mais diversas razões.
A literatura pode ajudar a justificar uma série de ideologias e visões de mundo. As lacunas dos textos literários são constantemente preenchidas por nós, pelos nossos anseios, preconceitos e utopias, para o bem e para o mal. Sua fragilidade e sua força parecem residir nessa indeterminação. Criação de seres humanos precários, pelejando contra a contingência da vida, como exigir algo diferente da literatura?
* Alfredo Cesar é professor de literatura luso-brasileira na Universidade de Chicago.
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